A Caixa de Energia Preta: 
Catalisador da Voltagem Ancestral

 Qual a primeira imagem que se forma ao evocarmos uma “caixa de energia preta”? O que seus conectivos visuais, intelectuais e sensitivos despertam? Para o artista paulista Elton de Oliveira, esses objetos transcendem a matéria: são, antes de tudo, usinas de memória. São os geradores que iluminam as comunidades, os rádios dos "tiozinhos" do bar e os sistemas de som de sua própria casa, onde, desde a infância, foi iniciado nos clássicos da black music — de "O Homem na Estrada" dos Racionais MCs ao "Thriller" de Michael Jackson.
Nesse circuito, abrimos os caminhos com a figura cardinal de Exu. Mestre das encruzilhadas e princípio dinâmico do universo, Exu é a própria eletricidade que percorre o Tempo Espiralar descrito por Leda Maria Martins. Ele é o catalisador primordial que dissipa a inércia e estabelece a corrente vital entre o Orun (plano espiritual) e o Aiyé (plano terrestre). Em Exu, a memória não é um repositório estático, mas uma energia cinética: é a força que faza pedra atirada hoje acertar o pássaro de ontem, permitindo que o passado seja constantemente reenergizado pelo presente trazendo a certeza viva de que a memória não pode ser queimada.
Essa compreensão nos aninha no cerne do movimento Sankofa e na filosofia de Nêgo Bispo, que rejeita a linearidade do fim em favor de um ciclo orgânico de "começo, meio e começo". Assim como na física, onde a energia nunca se perde, apenas se transforma, Bispo nos lembra que a vida é uma confluência contínua. Nesta jornada, confrontamos a imponente grandeza
de Iroko, a árvore-ancestral que atua como o grande conectivo desses dois planos (orun-aiye)do universo. Se Exu é a condutividade, Iroko é a estrutura que sustenta a carga. Ele nosensina que o tempo ancestral é a matéria densa que pulsa no corpo preto, transformando-o em um condutor de saberes que emanam diretamente da terra. 
A Caixa de Energia Preta emerge, então, como uma tecnologia ancestral de potência máxima. Ela evoca o conceito de "Opacidade": sua complexidade interna desafia a lógicacolonial que exige transparência e dissecação. Não precisamos abrir o gerador e expor seusfios para sentir sua vibração. Sua operação interna permanece velada, protegida no escuro fértil, mas sua eficácia é inegável. A essência não reside em desvendar o mecanismo racionalmente, mas em conectar-se à frequência do seu Axé.
Entretanto, vivemos o curto-circuito das "outras" caixas pretas: os dispositivos tecnológicos que ditam nossa relação com o mundo. O feed infinito, gerador artificial de dopamina, atua como um dreno de energia, inserindo a população em um estado de passividade e sedentarismo. Enquanto a caixa de energia ancestral nos convida à dança e à criação, a caixa algorítmica nos paralisa. 
A proposta crucial é reconfigurar essas fontes de energia para nos manter sãos e vivos perante a exaustão da era capitalista. O artista convoca o espectador a deixar de ser um terminal passivo para se tornar um agente ativo, buscando uma imersão que reconecta com o poder criativo. Como nos alerta Ailton Krenak, é preciso criar para "adiar o fim do mundo". Se já não temos tempo para criar (biointegração), mas apenas para produzir (desgaste), onde vamos parar? A resposta está em plugar-se novamente à origem: voltar à Caixa de Energia Preta para acender o futuro.
Mirella Barbosa